Endometriose: o que é e como afeta a vida das mulheres?

05/JUN

Endometriose afeta uma em cada dez brasileiras, segundo o Ministério da Saúde 


Cólicas intensas, inchaço abdominal, dor antes e depois de ter relações sexuais, intestino preso -  ou solto demais -, ciclo menstrual irregular. Estes são alguns dos sintomas da endometriose, doença que, de acordo com o Ministério da Saúde, atinge uma a cada dez brasileiras somando cerca de 7 milhões de pessoas. Apesar de não haver cura, é possível controlar a maioria das implicações, com o uso de medicamentos hormonais, por exemplo.


O QUE É ENDOMETRIOSE?


Quando a mulher menstrua, todo mês, o que acontece é que o endométrio, um tecido que reveste o útero, descama e é expelido pelo canal vaginal. Em quem sofre com endometriose, o tecido também descama, mas, em vez disso, ele segue outros caminhos e vai parar nos ovários ou na cavidade abdominal. Com a menstruação, tudo inflama e, esse deslocamento de tecido, irrita vários nervos e é o que causa tanta dor.


COMO DETECTAR A ENDOMETRIOSE?


"A endometriose é uma doença que vem passando, de certa forma, despercebida ao longo de toda a história", afirma o ginecologista Ricardo Pereira, do Centro de Endometriose do Hospital Santa Joana, em São Paulo (SP). Mesmo na atualidade, o diagnóstico ainda é muito complexo e costuma levar anos, geralmente de 7 a 10, a partir do momento em que uma mulher percebe os sintomas - e eles são levados a sério. Porém, apenas uma biópsia tem teor 100% conclusivo e ainda é um exame pouco acessível.


“Culturalmente, nossa sociedade menospreza os sintomas. Dizem que as mulheres são estressadas, que precisam relaxar... Nem sempre a paciente entende o que está acontecendo com ela. A sociedade precisa mudar e a própria medicina precisa acreditar mais nas queixas das pacientes”, afirma Pereira.


Para o ginecologista Eduardo Schor, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o diagnóstico precoce é importante para começar a tratar a endometriose com anticoncepcionais ou remédios hormonais à base de progesterona. Assim, há mais chances de o tratamento ser efetivo. "Com o tempo, a doença pode avançar e atingir um estágio profundo, comprometendo órgãos como intestino, bexiga, ureteres… E aí uma cirurgia se torna necessária", explica. 


As dores da endometriose podem ser muito mais fortes do que de cólicas comuns e até incapacitantes para algumas mulheres. É o caso da técnica em informação, Thais Silva, 33 anos. Durante o período menstrual, ela ficava de cama de 5 a 7 dias e precisava ir ao hospital pela manhã e à noite, para ser medicada. “As pessoas não têm o devido conhecimento. Acham que você toma um remédio e já melhora”, desabafa. “Já deixei de ir a festas de familiares, em casamentos, de viajar… Eu ficava mais deitada do que vivendo", conta.


“Existe esse mito que diz que faz parte do universo feminino menstruar com dor, que você tem que aguentar isso e só quando se torna insuportável passa a ser algo com necessidade de tratamento. O principal motivo dessa falha em identificar a doença é a desvalorização da cólica menstrual. Uma cólica acima do normal pode ser endometriose. O normal é tomar um remédio e passar. Isso de deixar de cama, de invalidar, de não passar com remédio nenhum, não é normal ”, afirma Schor.


ENDOMETRIOSE X GRAVIDEZ


A engenheira de produção Yasnaia Sousa, 32, chegou a sentir dor por 45 dias seguidos, até que encontrou um ginecologista que descobriu que ela não apenas sofria de endometriose, como também de adenomiose, um espessamento da parede uterina. Foi então que ela viu seu sonho de ser mãe ainda mais distante. “Aos 30 anos, tive o diagnóstico que mais temia. O médico me disse que, caso eu quisesse engravidar, a hora de começar um tratamento era aquela, mas eu não tinha condições para fazer tratamento, nem para ter um filho naquele momento. Uns dias depois, tive um sangramento fortíssimo. Fui ao hospital e descobri que tinha focos da endo, ou seja tecido do endométrio, no intestino. Então, o médico me deu um remédio para tomar por 21 dias e não me toquei que era antibiótico - nem todos sabem, mas esse tipo de medicamento pode cortar o efeito da pílula contraceptiva -  e eu engravidei. Sofri muito por pensar todos esses anos que eu jamais seria mãe e, quatro meses depois, estava grávida. Hoje, Melissa, minha filha, está com 7 meses. Ela é minha vida!”  conta.


Apesar de a endometriose ser a principal causa de infertilidade feminina, nem todas as mulheres que sofrem com a doença têm dificuldades para engravidar, segundo o ginecologista Ricardo Pereira. A bancária Sônia Pinto, 37, sequer sabia o que era endometriose quando procurou uma ginecologista para investigar se havia alguma causa para sua dificuldade de engravidar. A resposta da médica? "Ela me disse que meu quadro de endometriose não era grave e que eu não conseguia porque estava muito ansiosa", lembra. Está aí mais um exemplo de como a doença não é levada a sério, muitas vezes, nem pelos profissionais de ginecologia.


Além dos sintomas incômodos, como as dores que se assemelham a cólicas, mas muito mais intensas, e às dificuldades para engravidar, a endometriose também tem outras consequências. Uma delas está ligada ao fator migratório, ou seja, a doença também pode se manifestar também em outros órgãos do corpo, formando nódulos.


Depois de dois anos tentando, nem remédios, nem fertilização resultaram em gravidez e as dores pioraram com a pausa do anticoncepcional, que ameniza os sintomas. Em seguida, ao realizar um exame sofreu um processo de infecção que a levou a ter de remover suas trompas. “Fiquei bem abalada, pois ainda tinha esperanças de engravidar naturalmente” conta Sônia. Depois, realizou a cirurgia de remoção da endometriose e teve que retirar um ovário, o apêndice e parte do intestino, órgãos que foram afetados pela doença. “No fim, foram doze horas de cirurgia, mas, depois disso, minha vida mudou completamente, nunca mais senti dor”, diz. Hoje, após quatro fertilizações in vitro, ela é mãe dos gêmeos Miguel e Maria Julia, 3 anos.


Thaís Silva (que aparece no início desta reportagem) também precisou passar por uma cirurgia para remover um nódulo do tamanho de um limão, gerado em seu intestino pela endometriose. "A cirurgia mudou minha vida totalmente. Eu já não sentia mais dor. Três anos depois, descobri que estava grávida e nem sabia se depois da cirurgia eu iria conseguir, mas agora já estou na reta final: vou ser mãe de uma menina!”


"A endometriose é conhecida como a doença enigmática. Ninguém conseguiu explicar bem porque ela ocorre, porque ela migra, como ela surge em determinado local e não é possível acompanhar esse movimento. Ainda é um assunto muito obscuro para a ciência. Sabemos que há um fator genético a ser considerado, ou seja, se a mãe tem, as chances de a filha ter também são maiores. Agora, o motivo pelo qual aquele tecido surge em um local em que não deveria surgir é um assunto obscuro na ciência", explica o especialista Ricardo Pereira.


ENDOMETRIOSE TEM TRATAMENTO?


Como ainda não se sabe tanto sobre a endometriose, apesar de ser uma doença antiga, também não existe uma cura. O recomendado é o uso de medicações que bloqueiam a ovulação, para que a mulher não sofra com os sintomas e tenha sua qualidade de vida afetada. No entanto, nem sempre isso é o suficiente. Nesses casos é indicado uma laparoscopia, cirurgia minimamente invasiva feita para remover o tecido do endométrio dos locais indesejados. “Costumamos dizer que quando vamos para a cirurgia, vamos para a guerra, tirar tudo que tem de doença. Vamos guiados pelo exame de imagem para saber onde estão os focos. Se há algo no intestino, por exemplo, quem tira é alguém especializado nessa parte do corpo. Mas, algumas mulheres precisam fazer a cirurgia a quatro, cinco, sete vezes porque pode voltar” informa o ginecologista Eduardo. O profissional também relata que em toda cirurgia existe um risco, seja o  da anestesia ou de outras possíveis complicações. Por isso, assim que possível, a medicação para evitar a ovulação é retomada, com pausa apenas caso a paciente deseje engravidar", completa.

Fonte: https://revistacrescer.globo.com/Gravidez/Planejando-a-gravidez/noticia/2020/04/endometriose-o-que-e-e-como-afeta-vida-das-mulheres.html

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