Pré-eclâmpsia é uma das principais causas de mortalidade materna

30/JAN

A doença aumenta os riscos para o bebê e também para a mãe durante a gravidez e está entre as principais causas da mortalidade materna no Brasil. Saiba quais os cuidados para evitá-la e entenda por que um pré-natal bem-feito é tão importante


A pré-eclâmpsia está entre as principais causas da mortalidade materna, e vem crescendo no Brasil, mesmo diante de todo o avanço da medicina. Hoje, no país, o índice de mortalidade está em 64,5 óbitos maternos para cada 100 mil nascidos vivos – número bem acima da meta firmada com a Organização das Nações Unidas (ONU), que é de 30 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos até 2030, conforme os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. E muito disso – 20%, segundo dados do Ministério da Saúde – se deve ao grupo das doenças hipertensivas. Nele, estão incluídas a eclâmpsia (52%) e a pré-eclâmpsia (44%), praticamente com metade das mortes para cada.


 Mas, afinal, o que é pré-eclâmpsia?


 Você deve estar pensando “ok, já entendi que a coisa é séria e preciso me cuidar, mas então o que é exatamente essa doença e o que devo fazer?”. Vamos por partes: a pré-eclâmpsia é uma doença que pode aparecer tanto na gestação quanto no pós-parto, caracterizada por aumento da pressão arterial associado a alguma disfunção de órgãos (rim, fígado, cérebro) e presença de proteína na urina.


Acontece uma falha no momento em que a placenta penetra no útero materno, o que gera uma modificação dos vasos placentários, reação inflamatória que propicia pressão alta e outras alterações. “A causa é desconhecida, mas, provavelmente, multifatorial. Existem determinados fatores de risco para pacientes terem essa doença, como pré-eclâmpsia na gestação passada, IMC (índice de massa corporal) maior que 25, diabetes prévio à gestação, hipertensão crônica, gestação múltipla, lúpus, histórico familiar de pré-eclâmpsia, entre outros”, explica a ginecologista e obstetra Fernanda Mauro, do Grupo Perinatal (RJ).


A pré-eclâmpsia acontece normalmente a partir da 20ª semana de gestação, quando, segundo o ginecologista e obstetra Alexandre Pupo Nogueira, do Hospital Sírio Libanês (SP), a placenta pode apresentar uma perda de função, juntamente com o aumento da retenção hídrica da paciente. “Tem correlação também com pacientes que exibem maior predisposição a ter trombose, nas doenças chamadas de trombofilias, como síndrome antifosfolípede, e nas mulheres com mutações que favoreçam a coagulação do sangue.


O excesso de consumo de sódio também favorece o quadro”, complementa. Se a mulher já teve pré-eclâmpsia na primeira gestação, o risco de repetir o problema diminui, se o pai for o mesmo. Isso porque existe a adaptação imunológica da mãe ao DNA dele. Já se a segunda gravidez for de um novo parceiro, a chance gira em torno de 6%, como se fosse uma primeira gestação.


Porém, o aumento da pressão arterial antes das 20 semanas também já pode ser um sinal. Segundo estudo recente publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecology, apresentar hipertensão no primeiro trimestre da gravidez ou entre o primeiro e o segundo trimestres aumenta as chances de um distúrbio de pressão alta na gravidez. A pesquisa, liderada pela Universidade de Pittsburgh (EUA), analisou mais de 8 mil mulheres e detectou que o risco aumentou em 42% entre aquelas que apresentaram pressão alta no primeiro trimestre da gestação.


A importância de se alimentar de forma saudável durante a gestação já é amplamente comprovada e, recentemente, foi relacionada também à redução do risco de desenvolver a doença. Um estudo da Universidade de Sydney, na Austrália, em parceria com a Barwon Infant Study from Deakin University, Monash University, James Cook University e Australian National University, descobriu que níveis reduzidos de acetato, que é produzido principalmente pela fermentação de fibras no intestino, estão associados com a pré-eclâmpsia. Ou seja, uma dieta saudável e rica em fibras melhora a flora intestinal e ajuda a diminuir os riscos.


 Difícil de reconhecer


A pré-eclâmpsia é uma condição bastante séria, entre outros motivos, também por acontecer sem a presença de sintomas específicos ou por ser confundida com alterações normais da gravidez. Por isso, mais uma vez, é tão importante levar o pré-natal a sério.  


A pré-eclâmpsia – e a pressão alta gerada por ela – pode ocorrer sem sintomas, mas muitas vezes vem acompanhada de dor de cabeça, dor na nuca, inchaço, visão com pontos brilhantes, dor no estômago, náuseas e vômitos. Mas, então, como diagnosticar? O primeiro alerta é a pressão subir acima dos 14 x 9, depois da 20ª semana, e isso estar associado a inchaços. “A partir daí, procuramos identificar se há proteína na urina, queda de plaquetas, piora da coagulação, aumento nos níveis de ácido úrico e creatinina no sangue e sinais de destruição de glóbulos vermelhos do sangue. Isso determina o diagnóstico da doença”, afirma Pupo.


Uma vez confirmada a pré-eclâmpsia, a gestante deve tomar alguns cuidados e relatar qualquer sintoma diferente ao médico. “Inicialmente, é preciso ter uma alimentação adequada, com pouquíssimo sal, fazer repouso e aferir diariamente a pressão. Deitar sobre o lado esquerdo também ajuda, pois melhora a circulação placentária. Caso a pressão não se estabilize, é necessário entrar com medicação para pressão alta e monitorar”, afirma o médico ginecologista Rafael Lacordia, da Huntington Medicina Reprodutiva (SP).


As novidades mais recentes da medicina em relação à pré-eclâmpsia estão relacionadas ao diagnóstico e também ao tratamento. Segundo o ginecologista e obstetra Eduardo Cordioli, do Hospital Israelita Albert Einstein (SP), já existem estudos em estágio inicial para tratamentos de pré-eclâmpsia que vão permitir prolongar a gravidez. “Além disso, já é recomendado pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia que se analisem os riscos de pré-eclâmpsia da paciente. Para isso, é necessária uma boa anamnese [entrevista que o médico faz com o paciente no início da consulta] e, possivelmente, alguns exames. O que há de mais moderno são os que analisam marcadores bioquímicos disponíveis no sangue materno e marcadores de função vascular”, afirma.


 Riscos para mãe e filho


A pré-eclâmpsia é capaz de atingir os dois. Na gestante, o aumento da pressão pode danificar os rins, aumentando a retenção de água, que leva a edema (inchaço) de órgãos como os pulmões e o fígado, piorando a função deste e do cérebro, podendo levar à convulsão. Picos de pressão também têm potencial de levar a derrame cerebral. No bebê, os riscos estão relacionados à insuficiência placentária, com restrição de crescimento e ganho de peso e diminuição do líquido amniótico, aumentando as chances de parto prematuro.


É importante lembrar que os riscos para a mãe continuam mesmo após o parto, ou surgir somente após o nascimento do bebê. A adaptação do organismo e a diminuição dos fatores inflamatórios não acontecem de imediato. Por isso, é fundamental o acompanhamento por até 40 dias após o parto, pois ainda é uma fase crítica. Cordioli, do Hospital Albert Einstein, alerta: “De 15% a 30% das mulheres com pré-eclâmpsia podem convulsionar após o parto”.


Os dados em torno do problema são alarmantes, mas não impedem que o bebê nasça de parto normal. “Tudo depende da gravidade do quadro, do controle da pressão, de como está o bebê. De forma geral, a pré-eclâmpsia não impede o parto normal, mas deve ser avaliado caso a caso”, afirma Fernanda Mauro, da Perinatal. 



 

Fonte: https://revistacrescer.globo.com/Gravidez/Saude/noticia/2019/09/pre-eclampsia-e-uma-das-principais-causas-de-mortalidade-materna.html

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